Sentindo a Terceira Margem

“Esta é segunda história sobre Mangava, uma menina feia e abandonada, que pela segunda vez foi maltratada por mim na escrita. A Mangava peço desculpas, e prometo que te darei um final feliz, mesmo que neste momento, não saiba como e nem quando ele vai chegar.”

Mangava esperava o barco retornar, na esperança de que alguém lhe viesse fazer companhia. O Pai havia deixado a ilha a muitos anos, sem dar muitas explicações, mas ela desconfiava que devia ser pela forma dela existir, barulhenta, a ponto de incomodar pessoas a muitas distâncias, e feia, a ponto de nenhum espelho querer estar perto dela. Mesmo dizendo que não se importava, estava a muito tempo sozinha para dizer se a apatia que sentia era força ou fraqueza, ou se só era o que ela não queria ser mas se tornou.

Sentada às margens com os braços cruzados nas pernas recolhidas e olhos grandes no horizonte, Mangava esperava que talvez o ondular da água pudesse prenunciar um remo, mas era só a brisa de mais um dia enganoso. A brisa algumas vezes se tornava tempestade, mas água com lágrimas se misturavam e ficava difícil saber se a menina estava triste por estar sozinha ou controlando o dilúvio.

Uma vez contaram a ela a história de outro barqueiro, que não o Pai, chamado Caronte, que podia preencher os buracos que às vezes apareciam na apatia, ao custo de duas moedas, mas mesmo esse parecia não querer chegar perto dela, deixando-a sem entender o sentido das coisas e os caminhos que as correntes seguiam, trazendo e levando o mundo.

Restava apenas olhar as margens, mesmo que ela não esperasse mais o retorno de ninguém, nem de Caronte e nem do Pai. A vida sem eles a incomodava, mas na espera por ambos, ela olhava para o reflexo que vinha do rio, sempre presente e sempre diferente, e sentia um certo alívio, pois as águas traziam alguma coisa além da sua própria solidão, e talvez, um dia, trouxesse um barco que provasse que o mundo não era só ela.

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Licença Creative CommonsSentindo a Terceira Margem de Francisco Martellini está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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