Mangava era uma menina…

Mangava era uma menina feia, tão feia que para ser notada precisa fazer barulho arrastando uma lata cheia de pedras pela calçada. A criatura, como era chamada pelas ruas, carregava o cheiro assustador do dia da coleta de lixo, e depois de tantas reclamações e contratos perdidos com multinacionais, que não suportavam a existência da criança, a Autoridade Pública a exilou no topo de um Morro chamado de Azul, na periferia.

Ela não se importava, no fim das contas, pois as canas não reclamavam do seu cheiro e os pássaros não protestavam contra o barulho de sua lata, e sua vida finalmente ganhou um pouco de tranquilidade, apesar de muita solidão. Não é que ela não tivesse amigos, mas a única outra criatura vivendo naquela altitude era o fantasma de um padre avarento, morto a mais de 200 anos, que não era muito de falar, só resmungava o nome daquele que havia colocado veneno em suas laranjas.

A Autoridade Pública, nessa época, precisava aprovar um projeto importante para reeleger o atual prefeito, que levaria as águas das chuvas do Centro para longe dos olhos, e portanto, das preocupações das pessoas. Uma única pessoa impedia a obra, e a Autoridade sabia que ela era descendente daquele que envenenou as laranjas do Padre, e já conhecendo a índole do fantasma, que teve de ser exilado no Morro pelo mesmo motivo que Mangava, teve uma ideia.

Passando por cima das leis dos homens e dos fantasmas, na calada da noite, o portão das antenas da torre foi aberto ao Padre, e de tanto ele insistir com sua ladainha que agora chegava a toda a cidade, levou um bando de cidadãos insones às ruas com suas tochas, procurando por um meio de parar com a ladainha insistente. Quando o Vereador passou por um deles, a solução brotou por encanto na cabeça das pessoas, e o pobre homem foi morto a golpes de paus, chutes e tochas.

Mangava olhava a cena toda e viu quando o fantasma satisfeito por ter sido vingado, desceu para o tormento eterno com a alma lavada, e por um breve momento ela pensou em chorar, mas preferiu dar a volta na antena e ver o Sol nascer no mirante. Ela sabia que havia montes de criaturas que as pessoas não suportavam vivendo pelos cantos da Cidade, era só uma questão de tempo para que uma delas fosse enxotada para viver lá no Azul, então ela não estaria sozinha novamente.

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Licença Creative CommonsMangava era uma menina… de Francisco Martellini está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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